segunda-feira, março 09, 2009




Razão que salva


São as 7:00h, o céu começa a dar seus sinais de bom dia. Já fazem 12 graus a essa hora. Na rua já se vêem olhos nos outros olhos. As roupas não pesam tantos quilos a mais nos corpos. Um pouco de cores, poucas ainda. O sol chama para perto de si a pele branca dos tais meses escondida. Duas horas depois de entregar-se quase como puta de pernas abertas, está vermelha como gringo em Copacabana.




A fruteira recebe novos convidados. Chegam o morango, a manga madura, as maçãs suculentas e... as moscas! Agora já podem sair dos esconderijos escuros, sujos e fedorentos das casas mal limpadas. Retomam o seu lugar, a cozinha de temperatura e cheiros. Como eu gosto dessas tais moscas! Como sentia saudades suas!




São às 23:00h e estou desnuda. E o mais inesperado dessa história: sem apetrechos para facilitar esse ato, sendo esses aquecedores ou homens calientes. O clima está propício para os animais sem couro grosso, sem pele adaptável a temperaturas extremas, para os que têm os olhos brilhantes ao ver a mistura céu azul, sol a pino, pele livre e brisa do mar. Como se pode viver sem isso? Sendo os únicos do reino animal que raciocinam. Assim pensamos: vai passar.

domingo, fevereiro 22, 2009


Um dia dos olhos


Ela acorda cada dia com os olhos inchados, as olheiras da vida que pesa. O primeiro que faz é massagear as bolsas dos olhos, que sabe pelo que leu funcionar como milagre. Com os olhos, agora desinchados segundo seu ponto de vista - só ela percebe os milímitros a mais ou a menos - vê a roupa que vai vestir, o café que vai tomar, o namorado que continua do mesmo lado da cama, a calcinha jogada da noite anterior. Olha chave, elevador, porta, calçada, pessoas, rua, árvores, crianças, cachorros, publicidade, mendigos, céu, pássaros, pessoas, rua, árvores, memórias, bicicleta, sorrisos, crianças, flores, publicidade, caminhão, memórias, memórias, memórias. Fica paralizada nas memórias. Agora só enxerga lembranças. Chega ao trabalho, abre a caixa de correio eletrônico para de verdade ver as tais memórias. Lê emails de amigos que já partiram, vê fotos do sobrinho que nasceu a 2.000km, os spams que esqueceu de apagar, o álbum virtual daquela viagem à Paris. Está imersa nas visões de suas lembranças quando vê o relógio no canto inferior direito e enxerga a realidade. Volta a concentração no trabalho, vê planilhas, telefone, chefe, vale refeição, emails, telefone, pessoas, planilhas, sites. Até que outra vez a imagem do relógio aparece e vê a hora de partir. Os olhos brilham. Corredor, pessoas, ônibus, rua, calçada, cachorro, publicidade, memória, rua, bicicleta, porta, elevador, casa. Quando entra e vê seu amor os olhos, mesmos que passaram o dia vendo razão, enxergam desejo, paixão, sexo. Cama, roupa, olhos, pêlos, parede, lençol, camisinha, abajour, cama, olhos, pêlos. Sono. Os olhos se fecham e descansam de tanto ver. Agora só os da alma vêem. Sonhos.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009


Raiz da palavra

Não tem resposta certa como equação matemática. Só recebemos um índice quando nascemos e, ainda assim, muito pobre de detalhes. Vem só com os grandes títulos. Subtítulos se vão criando a cada etapa do enredo. :: Não é como livro planejado, roteiro comprado, pré-aprovado. É poesia criada passo-a-passo, expelida pelas glândulas lacrimais e sudoríparas. Poesia sem métrica nem ritmo definido. :: Não é sala ordenada, antiquada, lugar certo para o que leva função única. É salão aberto, livre para montagens, distintos públicos presentes, sem fechamento de rotina ou calendário. :::: Se um nega os nãos é porque não está entre nós. :: Os que aqui estamos, um estar em pele além do resto, sabemos que viver é a incerteza em totalidade. :: Os que, ainda que conheçam a máxima esta, se encontram atentos e abertos, vêem que na incerteza sempre há 7 letras de certeza. :: Se é incerta a vida, porque estamos sempre em busca da parte certa dela?

domingo, fevereiro 08, 2009








Estada marroquí


Sair de si para entrar no mundo do outro,
Ser o outro e se permetir abrir seu próprio mundo.
Olhos amendoados de tonalidades distintas de mel
O mesmo mel das especiarias alaranjadas
Dos sabores que afrodiziam os intervalos entre-orações.

Portas e janelas de arquitetura antiga, paredes de mosaicos trabalhados
Essa, a arte da matéria.
Os olhares profundos escassos na mirada direta
Mais penetrantes que ponta de faca em dedo na pia.
Essa, a arte da memória.

Sensações. Todos os sentidos trabalhados.
Riqueza. Nos detalhes, nos sorrisos de poucos dentes, na culinária de muitas cores.
Emoção. Do chamado religioso, da ingenuidade, também da malandragem.


Essa mistura de sabores e cores, amores e dores
Aberta e fechada à aproximação,
Está para os encontros de almas;
Janelas e portas de cada palácio pessoal.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009


Os músicos do metrô são tão músicos

Quanto os dos grandes palcos da vida.


Os músicos do metrô tocam de olhos fechados

Assim como os que praticam em casa a quatro paredes.


Os músicos do metrô são muito bons.


Mais do que por sua música em si,

Por conseguirem manter a música em si

Apesar da música esvair-se pelos ares aos ouvidos de quase ninguém.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Hoje chorei no ônibus indo pro trabalho. O motivo? O céu estava de duas cores: azul claro e salmão. Às 8h da manhã visualizar essa cena durante a semana, por incrível que pareça, já não era lugar comum há algumas quantas semanas. Sair de casa às 7:30h no inverno europeu sim, tem um quê de deprimente. Se vestir sem saber se o dia vai começar com céu azul ou cinza é como entrar no mar sem ter noção da temperatura da água; a surpresa é o único ponto seguro de acontecer.

Que interessante e, mais que nada, delicioso, ver a luz do dia mudar sua rotina, o sol se comportar de maneira diferente, as pessoas começarem a olhar pro céu com um sorriso Monalisa no rosto. Em mim então as mudanças são percebidas quase já nitidamente. Mais vontade de cantar e dançar, isso está claro. Querer ver cores, vestir cores, colocar cores nas unhas. Desejo por comidas mais leves, sucos. Incrível. Definitivamente somos animais naturais, que vivemos na e de acordo com a natureza.

quinta-feira, janeiro 15, 2009


Chega um ponto da vida, não que eu seja uma velha ou já tenha passado dos 50% da minha, que os olhos vêem de outra maneira as situações pelas quais passamos. As análises são mais freqüentes, os históricos pesam mais, a espontaneidade perde espaço para o medo. São bobos os que se deixam cair nos mesmos erros já vividos, que continuam seguindo seus impulsos uma vez já tendo percebido a dor das quedas. Você acredita mesmo nessas duas últimas frases escritas? Eu, sinceramente, apesar de constatar que é o que acontece na minha e nas outras vidas, continuo sendo romântica e não acreditando que esteja fadada à razão. Era (e continua sendo quando tenho “deslizes” de emoção) tão gostoso olhar para o céu e vê-lo só azul sem enxergar as nuvens cinzas que estavam ali também; estar com um homem e enxerga-lo como o mais belo de todos os existentes; escrever poesias e mais poesias para o sexo oposto, para o sol, para a vida. Algumas das atitudes que me preenchiam continuam existindo como verbo presente do indicativo, o que já está arraigado e ninguém me tira. São os olhos fechados ouvindo uma boa música, o dançar com o ritmo que entra pela alma, o abraçar forte os amigos queridos, o dizer te amo a quem realmente o coração palpita, o usar as cores a meu favor, o prazer de conhecer novas pessoas, o surpreender-me com as novidades da vida. Porém, toda a primeira parte dessa conversa, que foi se perdendo um pouco com o passar das frustrações, cada dia parece ganhar mais importância dentro do gráfico de pizza da minha vida. Os administradores me entenderão.

Aproveito para falar um pouco disso, de como a administração entrou na minha. Sabe, é algo que parece ser muito positivo mas, como tudo nessa grande vida, tem fortemente seu lado negativo. Desde quando resolvi abandonar a vida de artística-filósofa-designer e entrar no mundo do business minha vida mudou bastante. Não digo em relação à rotina, porque essa acaba sempre existindo e se tornando cada dia parecida. Ainda que fosse freelancer teria a rotina da não-rotina o que, por si só, já torna o dia-a-dia suficientemente previsível. A administração mudou minha maneira de enxergar tudo, entrou de maneira intrometida em todas os meandros da minha vida. Não se satisfez em ficar apenas na área profissional, colocou o bedelho na forma de pensar os sonhos, as relações amorosas, a família, até na forma de escrever. Nada parece ser simplesmente um pensamento ou um desejo; agora parece sempre vir atrelado de um porquê (justificativa), estar seguindo um caminho lógico (direção a um objetivo), ter pessoas envolvidas (players), ter pontos positivos e negativos (análise SWOT), etc etc etc. Ou seja, a maneira de ver a vida ficou um pouco “aburrida”, como diríamos por aqui. Digo um pouco porque é óbvio que os livros e a teoria não são tudo, as pessoas é que fazem a diferença (hehehehe um conceito da “nova administração” – pelo menos ela se renova né, não está fadada a além de chata ser monótona).

Bom, falando assim da administração, parece até que estou de mal com ela ou com a vida. Mas a questão não é bem essa, é um pouco mais profunda. É a eterna quantidade de pensamentos que me assola e que me deixa uma interrogação na testa: porque eu, que sempre fui tão romântica e poética, agora sou tão objetiva e administrativa? E, claro, como não podia deixar de ser e por ser muito raro que é uma pergunta chegue sozinha – geralmente vem com pelo menos mais duas ou três acompanhantes – outras se alojam: é uma questão de envelhecimento? isso aconteceu por desilusões amorosas? pode ser mudado? deve ser mudado? como ter o equilíbrio emoção-razão nas várias atitudes perante a vida?

Pois então, é por aqui que termino esse texto um pouco mulher-mal-amada-que-reclama-da-vida e digo que ao mesmo tempo que tudo isso passa pela mente.... estou com uma energia pulsando dentro de mim que me está dando vontade de correr e pular por aí... tirar as pessoas dos seus lugares e rodar com elas, cortar papel e jogar pro alto, jogar bolinha nos outros que estão aqui nas outras mesas (sim, estou no trabalho mas todo esse pensamento e a falta de algo objetivo que fazer me fizeram entranhar-me aqui e não conseguir parar até ter todas as palavras estivessem devidamente digitadas). É por aqui pela 736ª palavra que termino e digo: que vontade de subir na mesa e dançar “desce-desce”!